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Resenha: Batman 2025 Vol. 01

Foto do escritor: E. Vespertino
E. Vespertino
25 de jul.
11 min de leitura

A revista do Batman começou a ser publicada em 1940 e seguiu firme até 2011, passando por diversas periodicidades até se consolidar como mensal na edição # 260. Consagrando-se como uma das séries de quadrinhos mais duradouras da DC Comics, o título foi o primeiro a apresentar o herói como protagonista absoluto, trazendo inicialmente várias histórias ao lado de seu parceiro mirim, Robin. A publicação também contou com os Batman Annual, que começaram republicando clássicos semestralmente e, a partir da edição # 8, passaram a trazer histórias originais.


Em setembro de 2011, a iniciativa Os Novos 52 reformulou toda a linha editorial da DC, encerrando a numeração clássica e lançando Batman (Volume 2). Escrita por Scott Snyder e desenhada por Greg Capullo, essa fase totalizou 65 edições até 2016 e centralizou grandes crossovers da Batfamília, como A Noite das Corujas e A Morte da Família. O evento, motivado pelo conceito do Multiverso de 52 realidades paralelas, foi um sucesso de crítica e se tornou uma das sequências de histórias contínuas mais elogiadas do personagem.


A partir de 2016, a iniciativa DC Rebirth deu lugar a Batman (Volume 3), série que combinou elementos de continuidades passadas e estendeu-se até 2026. Comandado por roteiristas como Tom King e Chip Zdarsky, o título se manteve entre os mais populares da editora, somando 163 edições e participando de eventos como Aurora da DC e DC Sem Limites. Por fim, devido a atrasos na publicação, a série sucessora, Batman (Volume 4), teve seu lançamento iniciado antes mesmo do encerramento oficial deste terceiro volume.

Batman correndo em um fundo branco. Capa Variante
Capa Variante com Efeito, por Daniel Sampere

Já a revista Detective Comics propriamente dita começou em 1937, pensada para trazer antologias de histórias policiais com conteúdo totalmente original, como as aventuras de Slam Bradley, Lung Ching, Speed Cyril, e outros.


O rumo da publicação acabou mudando em 1939, na edição # 27 o personagem “Bat-man” (sim, com essa grafia) apareceu. O sucesso do vigilante foi tão grande que ele mesmo monopolizou o título, transformando a revista em uma vitrine para as histórias de Gotham City e introduzindo aliados históricos (como o Robin) já em 1940.


Nas décadas seguintes, a publicação sobreviveu à crise dos super-heróis pós-Segunda Guerra, passando por uma fase fantasiosa de ficção científica até recuperar a essência de mistério urbano e tom sombrio nos anos 1970 com Dennis O'Neil e Neal Adams. As publicações seguem ininterruptas desde 1937, e, apesar de temporariamente reiniciada para o número 1 com o reboot Os Novos 52, a numeração original foi restaurada em 2016, permitindo hoje a passar da milésima edição.


A primeira edição dessa nova série mensal solo do Batman, da publicação DC Sem Limites contém as edições Batman (2016) 153 e Detective Comics (2016) 1090, ambas com data de capa de Dezembro de 2024.


Essa resenha pode conter spoilers.

Resumo

A primeira história da revista, Batman (2016) 153, tem o roteiro de Chip Zdarsky e inicia o arco A Cidade Moribunda, começando com Batman e Jim Gordon conversando sobre o atual estado de Gotham e observando o letreiro da NigmaTec, a nova empresa de segurança digital do Charada, que foi inocentado de seus crimes e agora está livre. O prefeito Christopher Nakano declara na TV que não acredita nessa redenção e, nos bastidores, vêm sendo chantageado por Leonid, um enviado da Corte das Corujas. Leonid exige passe livre para os negócios do Charada e ficamos sabendo que a organização tirou Gordon do cargo de comissário, e o prefeito passa por uma crise familiar.


Suspeito das operações do Charada, Batman invade a NigmaTec e o confronta sobre uma parceria com o Sr. Frio, mas o vilão assume o uso da tecnologia, deixando a situação ainda mais tensa. Em um clima de instabilidade, a situação do prefeito piora quando sua esposa, Koyuki, decide ir embora, e, ao mesmo tempo, as empresas Wayne é alvo de protestos e instabilidades administrativas. Bruce, em meio a uma reunião com a nova CEO, Rowan Birkemoe, sai abruptamente ao acompanhar um assalto no noticiário, mas ao chegar lá (já como Batman), depara-se com um novo vigilante na cidade: o Comandante Estrela, trajando cores patrióticas e elementos da bandeira dos EUA. A polícia, sob o comando do Comissário Savage, apoia o novato e manda prender o Batman, gerando um embate com o prefeito Nakano, que rejeita o novo mascarado e quer a demissão de Savage.

Página de quadrinho A Cidade Moribunda: mostra o trecho de uma família perdida em Gotham à noite
Trecho de A Cidade Moribunda

Após toda a agitação desse dia e um momento de desabafo de Bruce com a Dra. Leslie (que cuidou dos seus ferimentos), acompanhamos três histórias em paralelo, Bruce Wayne, prefeito Nakano, e Charada, terminando em um gancho de revelações misteriosas para o próximo capítulo.


Já na segunda história, Detective Comics (2016) 1090, com roteiro de Tom Taylor, inicia-se o arco Piedade do Pai, e já começamos na ação com um ótimo gancho de três semanas no futuro, mostrando o Batman encurralado por uma figura misteriosa de garras que fez uma pessoa de refém e que sabe sua identidade. A partir daí, o roteiro volta ao passado para estabelecer um dilema ético do passado de Thomas Wayne: salvar a vida do namorado abusivo de uma jovem após um acidente. Bruce Wayne, ainda uma criança, acaba sabendo disso e questiona o pai, que o explica o valor incondicional de salvar qualquer vida, o que ele, quando a história salta ao presente, diz ter levado para sua vida. Em meio a uma perseguição a um jovem assaltante, que fugiu assustado com a abordagem bruta de Batman, este acaba, por acidente, presenciando mais um ato do novo serial killer da cidade, diretamente com o jovem.


“Batman” ainda se esforça pra cumprir suas responsabilidades como “Bruce Wayne”, mantendo as aparências na alta sociedade e decide por ir a um evento de uma amiga sua, Scarlett Martha Scott, que tudo indica ser a filha da jovem que do namorado abusivo, salvo no passado por Thomas Wayne, mas Bruce acaba descobrindo um clube secreto da elite de Gotham focado num tratamento de longevidade apelidado de Santo Graal. O ponto alto dessa sequência é o conflito interno de um Bruce que se sente desgastado pelo tempo e desesperado para não virar obsoleto, e fica visivelmente tentado pelas promessas de vitalidade, mesmo sabendo que isso estaria participando de um privilégio reservado aos ricos.


Tom Taylor usando uma boina preta e uma camisa preta
Tom Taylor, roteirista de Detective Comics (2016) 1090

A edição finaliza amarrando os pontos apresentados ao longo da história, trazendo os pensamentos de Bruce sobre os ideais de seu pai de salvar vidas. O choque final da história vem ao revelar que o agressor que Thomas insistiu em salvar lá trás era ninguém menos que Joe Chill, o homem que em outras histórias foi o assassino de Thomas e Martha Wayne, entregando uma virada genial e uma reflexão sobre como um acontecimento leva a outro no universo.

Resenha

Essa revista, principalmente a escrita por Zdarsky é uma aula de contar histórias por quadros, cada posição, cada desenho, guiando nosso olhar, conduzindo nossa experiência; é fantástico.


O começo da história pode parecer meio corrido, jogado de muita informação, mas me parece que ele quer ambientar de uma vez e não se demorar muito em pequenas questões pra seguir pra estória; é um trabalho empolgante de exposição frenética.

É interessante ver em A Cidade Moribunda como Bruce Wayne sabe jogar o jogo do poder, o jogo da política, nesse mundo sujo de bilionários: De dia, na frente das câmeras, ele apoia as ações de Nigma, mas, de noite, ele é o Batman, e caça o Charada. Faz pensar se talvez, TALVEZ, há alguma bondade oculta no meio sujo dos bilionários? Não sei…


Com esse roteiro fica bem claro aonde Zdarsky quer seguir, pelo menos nas primeiras páginas, qual é a pegada do texto, qual o objetivo, que é uma pegada mais social, as consequências de existir um Batman e suas contradições.

Página de quadrinho Piedade do Pai: mostra o trecho do Batman em uma sola com uma figura estranha de garras que corta a orelha de seu uniforme
Trecho de Piedade do Pai

O roteiro não é sutil quando questiona as verdadeiras intenções de Bruce, um bilionário excêntrico, ao ajudar o povo mais pobre de Gotham. Ele é constantemente alvo de protestos e acusado de concordar com linhas políticas mal-vistas na sociedade moderna. Acredito que, mais pra frente na história, veremos mais questionamentos quanto a isso, talvez ligado a gentrificação ou algo assim.


Zdarsky e Jiménez sabem controlar perfeitamente os quadros para manter a tensão, pra não deixar claro as intenções de Birkemoe, o envolvimento e redenção do Charada, o verdadeiro caráter do Comandante Estrela, nos instigando a querer ler mais (uma característica essencial para uma primeira edição de qualquer revista em quadrinhos).

Considerando os acontecimentos dos últimos dez anos e como cada um levou ao próximo, percebemos que é uma história muito atual e relevante: Um rico do setor de tecnologia que tem uma criptomoeda (um dinheiro artificial) que se valoriza

abruptamente, e, por “coincidência”, ele é uma pessoa ruim, um vilão; é cômico.


Outro ponto crítico aqui (que fica óbvio quando Bruce diz, mas nem precisaria) é a figura do Comandante Estrela que, por mais que seja um outro herói, pela escolha dos elementos visuais e as cores, não associamos ele a esperança e heroísmo isso não é sem intenção. Zdarsky dá uma cutucada com as questões sociais trazidas na história, quer trazer à consciência não apenas o cuidado com figuras carismáticas da elite, quanto figuras carismáticas que se apoiam no discurso patriótico e dizem querer “ajudar”.


O roteiro e os desenhos constroem o mistério desses vigilantes e da disputa de poder política entre a Corte das Corujas e Nakano de forma espetacular. Todo o quadrinho mostra um clima de inquietação, tensão: Fox não está mais nas empresas Wayne, Charada está solto, a cidade está melhorando, mas há muitos protestos e um novo vigilante para se opor ao Batman, com o apoio da polícia e uma equipe de relações públicas boa.


Partindo pra Detective Comics, é agradável perceber que a ambientação das cenas iniciais é prevista na capa: A iluminação verde, a expressão de violência no resto de Batman, os movimentos indicando perigo, ação, luta. Vou comentar mais na seção sobre a arte, mas é uma escolha de cores boa.


Eu reforço: essa revista é uma aula de contar histórias por quadros. As primeiras páginas não deixam exatamente claro o que ou quem é essa figura misteriosa e perigosa. Será uma versão do Espantalho? Será alguma versão deturpada da Mulher-Gato? Nenhum dos dois?

Chip Zdarsky em uma rua com neve e árvores sem folhas ao fundo
Chip Zdarsky, roteirista de Batman (2016) 153

Com toda a imagem e as ações dos personagens, já vamos conhecendo e construindo na nossa cabeça o caráter deles: Thomas Wayne, Bruce Wayne, Batman, todos que aparecem. Um pequeno detalhe é que parece um pouco aqui que Taylor brinca um pouco com a ideia de que, na verdade, Bruce Wayne é só uma identidade secreta, é só uma imagem, uma pessoa pública. A verdadeira personalidade, a verdadeira pessoa, é o Batman.


Os pontos de humor e leveza da história são gostosos de ver, como o jeito de Alfred com Bruce ou o comentário irônico de Martha sobre Bruce acabar puxando os hábitos noturnos do pai.


Eu não tenho nenhuma experiência (pelo menos até hoje) lendo as revistas das publicações da Detective Comics, mas, me parece, que o lado detetive aqui é bem celebrado.


Por fim, gostei de a DC ter permitido publicar essas duas histórias, esses dois roteiros que cutucam gente grande e importante das elites mundiais e até (por que não dizer isso, né?) flerta levemente com as teorias de conspiração.

Arte

A capa que ilustra tanto esta edição da Panini quanto a Batman (2016) 153 nos Estados Unidos foi feita Jorge Jiménez, e mostra um Batman com menos músculos, roupa cinza, capuz preto, e uma imponente e enorme capa também preta (este também é o estilo de desenho adotado por Jiménez ao longo da história). Já na capa variante dessa edição podemos ver o trabalho de Tony Harris e Jeremy Clark, e mostra, em uma mistura de terror medieval com carnival, um confronto direto do Coringa e do Batman.


Jorge Jiménez com uma camiseta preta
Jorge Jiménez, ilustrador de Batman (2016) 153

A capa da Detective Comics (2016) 1090, de Mikel Janín, aparece na publicação da Panini na contracapa, e mostra, em tons verdes (uma cor misteriosa e muito característica no terror), Batman em uma pose assustadora mergulhando no ar. A capa variante tem um tom preto e branco, sépia, em uma imagem estilo terror clássico, com o Batman empoleirado em um muro. Se assemelha um pouco com o estilo do jogo Arkham Asylum.


A arte da capa de Batman (2016) 153 reflete exatamente o design escolhido para o Batman nessa parte: Menos músculos, roupa cinza, capuz preto, e uma imponente e enorme capa também preta. Vemos ao longo da edição um traço um tanto cinematográfico mesmo ou até de animação. Ainda é desenho, não há realismo, mas os movimentos são percebidos como rápidos, decisivos, mas é quase infantil; é divertido de olhar, agradável.


As cores também não são fortes sempre, há algumas vezes uma monocromia pastel nos personagens, de forma que as sombras não ficam tão pronunciadas. Se o desenhista não ousa na forma e no movimento dos quadros, ele compensa construindo o estilo dos personagens muito bem.


Charada tem uma cara engraçada, meio de roedor ou uma raposa. O prefeito Nakano passa uma frieza e o fato de um dos seus olhos estar “coberto” é um toque interessante, enquanto sua esposa transmite inocência, e, não poderia deixar de falar, o Comandante Estrela já quando começamos a vê-lo não passa confiança, ele já parece suspeito só de bater o olho.


Na história Detective Comics (2016) 1090, também ilustrada por Janín, vemos uma arte que consegue ambientar corretamente cada cenário, como um filme. Lendo e relendo conseguimos enxergar como os elementos visuais dão uma certa demonstração de quem é quem, sua personalidade, seus olhares, tudo isso.

Mikel Janín usando óculos retangular
Mikel Janín, ilustrador de Detective Comics (2016) 1090

Gosto como, às vezes, alguns traços se assemelham ao tridimensional, como um jogo da Telltale Games, principalmente Bruce Wayne. Como na outra história, aqui Batman é desenhado de forma clássica, mas é bem pouco expressivo, muito sério, mal abre a boca, assustador, principalmente seus olhos.


É interessante também perceber como mais de uma técnica e estilo de desenho e coloração é utilizado nessa edição, e isso fica mais evidente em alguns personagens, como a figura do começo da história, que fica mais misteriosa e assustadora ainda com esses elementos.


Em contraste com a primeira história da edição, a questão das sombras segue quase no oposto: Quando precisa, é bem marcado, e as cores têm mais contraste entre si, exceto em alguns momentos chave, que a iluminação do ambiente realmente deixaria tudo mais ou menos com o mesmo tom, sabendo equilibrar bem o monocromático.

Uma menção honrosa é a arte do Batman voando rapidamente por Gotham com seu gancho e capa, que é quase cinematográfica, quase cena de Arkham Knight.


Claro, também não posso deixar de elogiar também a letrista Valeria Calipo que consegue transmitir muito bem as “vozes”, o tom de cada personagem.

Conclusão

Com exceção de algumas histórias emprestadas de amigos e as clássicas, que conheço de se ouvir muito falar, essa foi, de fato, meu primeiro quadrinho do Batman. O primeiro que procurei para comprar, o primeiro que sentei para ler com calma, o primeiro, e eu posso dizer que não me arrependi. Acompanho Batman desde sempre, desde as animações na televisão, os jogos LEGO, a saga Arkham nos videogames, e não é exagero de dizer que é um dos maiores representantes dos heróis.


É um avatar, é como um personagem coringa (sem ironia) que podemos usar pra contar qualquer história, cutucar qualquer aspecto da sociedade, e nos projetarmos nessa figura quase nipônica de superação, de capacidade, de superioridade do que uma pessoa pode alcançar.


Percebi que não foram histórias focadas em desenvolver muito alguns personagens ou lidar com alguns aspectos da cidade, de Gotham, mas, de certa forma, aventuras interessantes do Cavaleiro das Trevas que podemos acompanhar nesse ambiente, com essas figuras emblemáticas como o Charada e sua astúcia e o serial killer misterioso do Detective Comics.


A arte dos quadros e dos personagens não é necessariamente memorável ou ousada (como na história Batman: Asilo Arkham, por exemplo), mas é empolgante o suficiente na capa pra chamar nossa atenção e tem alguns momentos brilhantes que ficam na memória.


Eu pessoalmente sou fã de histórias, ponto. Se é uma novelização fiel ou melhor até, prefiro do que ler quadrinhos. Mas o trabalho de todos os envolvidos é empolgate o suficiente para nos instigar a continuar lendo, já que usam os recursos da mídia quadrinhos pra construir e controlar toda a tensão.


Mas ainda é muito cedo para dizer, muitos arcos começaram muito bem e depois desandam. Só sei que já estou empolgado para ler a próxima, mostrada já na última capa com o título “Assassinatos em Gotham!”, onde vemos uma montagem com Leonid, Comandante Estela, Koyuki, e Charada, por cima de uma cena de crime sendo investigada por Gordon e Batman.

Capa de Batman (2016) 154, onde vemos uma montagem com Leonid, Comandante Estela, Koyuki, e Charada, por cima de uma cena de crime sendo investigada por Gordon e Batman.
Capa de Batman (2016) 154

Ler essas histórias foi um grande prazer!

Leituras Complementares



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© 2025 por E. Vespertino

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