Resenha: Absolute Mulher-Maravilha Vol. 01
- E. Vespertino

- há 4 dias
- 7 min de leitura
O Universo Absolute foi lançado em 2024 como uma variação do universo principal da DC, em que o vilão Darkseid remoldou toda a criação à sua imagem distorcendo a realidade em uma versão onde o mal sempre irá vencer. A origem desses eventos remonta às histórias de Doomsday Clock, Dark Nights, e Infinite Frontier, mas tudo isso pode ser resumido como um reboot muito bem-feito em que partes vitais dos personagens são alterados (a fortuna do Batman, a infância da Mulher-Maravilha, e a criação do Super-Homem pelos Kent), mas mantendo sua mensagem central e aspectos chave da sua personalidade intactos.
A linha de histórias Absolute foram um sucesso de vendas no país original logo quando lançaram em 2024, com alguns números chegando a 400 mil cópias, e a linha total hoje (04/01/2026) já bateu os 8 milhões de unidades, isso sem contar os números dos mercados exteriores. Eu não podia ficar de fora de ler pelo menos uma lasquinha!
A Mulher-Maravilha foi conceitualizada em 1940 por William Moulton Marston e sua esposa, e apareceu pela primeira vez na revista All Star Comics # 8, de outubro de 1941, e já nessas primeiras histórias víamos elementos que seriam símbolos da personagem, como o laço da verdade, os braceletes e o avião invisível.
Sendo uma forte personagem feminina, que por muitas vezes desafiava padrões, perdeu popularidade e foi alterada em sua abordagem na guinada conversadora das décadas de 1950 e 1960, só começando a recuperar seu prestígio com o seriado de televisão da década de 1970. Como os outros personagens da DC, ela foi afetada com a Crise nas Infinitas Terras, passou pela fase sombria dos anos 1990, teve sucesso na televisão com as animações nos anos 2000, e teve um desenvolvimento interessante em Os Novos 52, até chegarmos aqui, no universo Absolute.
Essa resenha pode conter spoilers.
Resumo
O quadrinho compila as edições 1 e 2 de Absolute Mulher-Maravilha, lançados no último trimestre de 2024 nos Estados Unidos, em que são contadas a primeira e segunda parte do arco A Última Amazona.
A ação já começa na primeira página, mostrando Gateway City sendo atacada por centenas de demônios-lagarto voadores e uma pirâmide invertida sobrevoando o mar e perseguindo os cidadãos da cidade, enquanto os jornalistas tentam cobrir a notícia, até que vemos a primeira aparição da Mulher-Maravilha, voando em um esqueleto vivo de pégaso, e escondendo seu rosto com um elmo, pronta para eliminar as criaturas.
Então o quadrinho começa a alternar entre histórias do passado de Diana e os acontecimentos na cidade. Descobrimos que essa versão da Mulher-Maravilha não cresceu em Themyscira, a Ilha Paraíso, mas num lugar oposto: A Ilha Selvagem do Inferno, onde a feiticeira Circe está presa.
Diana, ainda bebê, foi entregue à Circe por Apolo. O quadrinho explora muito da infância e do desenvolvimento de Diana na “Ilha Inferno”, incluindo sua aproximação com a mãe, sua personalidade, e seu contato cada vez maior com a magia. Dessa forma, as duas transformam aquele lugar antes tenebroso em um lar.
Já de volta a Gateway City, Diana explique ao exército que as criaturas que atacaram anteriormente, chamadas Augúrios, eram fracas comparadas aos próximos desafios que viriam pela frente, que vão requerer todas suas habilidades de guerreira e bruxa. Enfrentando uma dessa ameaças, chamada de Augúrio Primordial, é que vemos pela primeira vez suas habilidades com o famoso laço, chamado aqui de Nêmesis, e também vemos seu famoso par romântico pela primeira vez, Steve Trevor.
Como nas histórias clássicas, o quadrinho mostra que ambos se conheceram quando Trevor foi parar na ilha de Diana, e resgatado por ela das criaturas do Inferno. A recepção por Circe foi bem mais amigável do que a usual recepção das Amazonas, e, após um choque inicial e um breve período de adaptação, o trio se dá bem e se estabelece na ilha.
Por sua bravura e compaixão, já no presente novamente, vemos que Diana entra em conflito com as autoridades militares, mas Steve Trevor, por a conhecer, confia totalmente nela, que está esperando e se planejando para o pior. No entanto, quando a cidade começa a ser evacuada e os dois tiram um momento para conversar sobre os planos, todos são surpreendidos por um barulho terrível e uma aparição pior ainda: o Tetracida.
Resenha
É evidente que a decisão da Panini de dar mais ênfase às suas capas canoa, com um preço mais acessível e até lançamento mais frequente, está fazendo um sucesso. Eu mesmo já estou com várias histórias que ficariam bem abaixo na minha lista de prioridade de compras se fossem cerca de 50 reais ou até mais, incluindo diversos títulos do Homem-Aranha e da coleção Absolute.
Qualquer subversão vai chamar atenção no começo, isso já é bem estabelecido no mundo dos quadrinhos de super-herói, mas o que vai mostrar o real valor desses personagens Absolute é o enredo. Já se sabe que essas histórias estão interligadas de alguma forma, visto que é uma deturpação coordenada do universo regular, então com certeza teremos uma sequência longa de publicações.
A primeira edição de Absolute Mulher-Maravilha consegue prender o leitor e deixá-lo curioso para as próximas histórias, o que já indica um sucesso editorial. Mas, para além da parte econômica, a abordagem não-linear da história e toda a ambientação tanto de Gateway City quanto da “Ilha Inferno” são muito bem desenvolvidas para contar mais dessa versão bruxa da Diana.
O quadrinho não a retrata por bruxa só porque faz feitiços, mas tanto ela quanto sua mãe, Circe, são mostradas como mulheres independentes, que conhecem seu poder, conhecem as artes mágicas, vivem em próprio círculo fechado (neste caso, imposto), e que, ainda assim, usam todo o potencial de sua energia feminina. Me parece um aceno romântico às bruxas da antiguidade, principalmente as que sabemos que foram perseguidas injustamente.
Como as edições saem primeiro lá fora, quem acompanha os fóruns já sabe de alguns detalhes, mas o que posso dizer sem estragar a experiência é que nem sempre o que parece é, e isso ainda não foi revelado nessa edição, então é bom ficar atento para os próximos segredos.
O fato de a história já começar na ação, sem perder tempo, tanto no combate à ameaça quanto revelando tudo o que é apropriado para o momento revelar da história da Mulher-Maravilha me encantou ainda mais.
Algumas mudanças não são mal-recebidas, como Trevor não sendo claramente retratado como um par romântico (o que fica em aberto) e o lado guerreiro não ser tão enfatizado, porque a essência da personagem está lá, seu coração.
Além disso, as inspirações para os elementos visuais e até de trama são bem claros, o que é uma piscadela para quem logo de cara entende o lado Kaiju/Lovecraftiano retratado.
Nas duas edições desse arco, consegui ver uma construção e uma resoluções. O foco aqui não foi só ação, foi história, claramente.
Arte
A capa que ilustra tanto esta edição da Panini quanto a primeira issue nos Estados Unidos foi feita por Hayden Sherman (desenho e arte-final) e Jordie Bellaire (cores), e nas capas variantes dessa edição podemos ver o trabalho de Wes Craig e Mike Spicer, em uma capa cartunesca e cheia de movimento, e o estilo “chibi”, parecido até com algumas representações de personagens de jogo de plataforma, de Skottie Young (esse vem aparecendo bastante nas últimas publicações tanto de Marvel quanto DC!).

A capa da segunda edição, também de Sherman e Bellaire, corresponde a segunda issue, e aparece na publicação da Panini na contracapa. A capa variante dessa edição, por Matteo Scalera e Giovanna Niro, é hipnotizante, com cores e técnicas fantásticas.
Sherman e Bellaire usam isso intencionalmente um estilo mais econômico, sem muito peso para a arte-finalização (em alguns casos quase ausente), para compor os elementos visuais dos quadros.

A composição de quadros nas primeiras páginas reflete perfeitamente cada momento da história, sendo mais dinâmica em alguns momentos, e mais padrão em outros. Os artistas não têm medo de ousar nessa competição e a leitura flui suavemente.
Sherman opta por um estilo bem mediterrâneo de traços para Diana e Circe, com uma pitada de Valquíria na aparição de Diana nas primeiras páginas.
Bellaire é espetacular trabalhando as cores. A intensidade do brilho do laço é mostrada perfeitamente, os pontos de sol e sombra, e o monocromatismo é utilizado extensivamente para destacar apenas os pontos que importa e transmitir o significado adequado. Esse estilo pode não agradar a todos e, pessoalmente, levei um tempo para aceitar, mas com o tempo você se acostuma.
Não posso deixar de elogiar também os letristas que conseguem complementar a história de forma única, acrescentando caracteres estranhos para retratar magia.
Por fim, a imagem que está como capa dessa resenha é uma outra variante da primeira issue, dessa vez por Jim Lee, Scott Williams, e Alex Sinclair. Impressionante, não?
Conclusão
Nunca fui de acompanho muito Mulher-Maravilha. Para um garoto que cresceu nesse meio ela sempre foi renegada como a Super-Homem mulher, ou aquela que peita o Batman, mas se essa história me convencer a ler outros arcos... Posso me surpreender!
Sobre a arte não tenho nada a acrescentar além de: Perfeita com uma pitada de momentos brilhantes! Nas duas partes do quadrinho, a arte interage com a trama, compõe algumas brincadeiras visuais como a mudança da cor dos olhos da Diana, edições nos balões de diálogo, e sua dinâmica de luta sendo explorada com quadros com maior movimento.
Eu pessoalmente sou fã de histórias, ponto. Se é uma novelização fiel ou melhor até, prefiro do que ler quadrinhos. Mas o trabalho de todos os envolvidos é tão excepcional que pode-se dizer com segurança que usaram os recursos da mídia quadrinhos.
Mas ainda é muito cedo para dizer, muitas sagas começaram perfeitas e depois desandaram. Só sei que já estou empolgado para ler a próxima, mostrada já na última capa com o título “A Morte do Medo”.
De qualquer forma, ler essas histórias foi um grande prazer!
Leituras Complementares
Lepore, Jill (Outubro, 2014). "The Surprising Origin Story of Wonder Woman". Smithsonian magazine. Consultado em 6 de maio de 2026.
Lyon, Charles (23 de Agosto de 2006). "Suffering Sappho! A Look at the Creator & Creation of Wonder Woman". Comic Book Resources. Arquivado do original em 20 de abril de 2008. Consultado em 6 de maio de 2026.

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