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Resenha: A Saga do Clone (2024) Vol. 01 - Homem-Aranha contra... Peter Parker?

  • Foto do escritor: E. Vespertino
    E. Vespertino
  • 29 de dez. de 2025
  • 9 min de leitura

No início dos anos 1970, os fãs de Homem-Aranha tiveram duas surpresas desagradáveis: O surgimento de um asqueroso vilão chamado Chacal, e a morte de Gwen Stacy. Sua morte não afetou apenas Peter Parker, mas também Miles Warren, o professor de biologia de Gwen e Peter, que era secretamente apaixonado por Gwen, e entrou em uma espiral descendente para a loucura, jurando vingança contra o Homem-Aranha por pensar que ele a havia matado.


Usando todo seu conhecimento e habilidades, Warren criou um clone de Peter Parker! Com o tempo, esse clone virou uma estrela no filme Através do Aranhaverso (2023), skin em jogos como Marvel's Spider-Man (2018) e, para os mais antigos, o jogo Spider-Man (2000), ganhando destaque e um grande desenvolvimento nos quadrinhos de 1994, e assumiu o manto de herói chamado Aranha Escarlate, inaugurando a segunda Saga do Clone.


Os volumes # 1 e # 2 da nova saga foram lançados em uma promoção, custando apenas R$ 44,90 em conjunto (um ótimo negócio!). Nesse conjunto de histórias, os leitores são situados nesse início tenso que é o período em que o clone e Parker estão compartilhando vidas semelhantes, mas em corpos diferentes.


A primeira história desses encadernados já nos pega pela capa e pelo provocativo título “Homem-Aranha contra... Peter Parker?” Quer uma história que vai mexer com a sua cabeça? Essa com certeza é uma!

Resumo

Essa primeira edição de Saga do Clone traz o arco “Poderes e Responsabilidades”, e a história começa com Peter Parker se mostrando muito instável e abalado por todos os recentes eventos na sua vida pessoal, incluindo a saúde frágil da Tia May e o estado do seu relacionamento com a Mary Jane, e uma forte crise de identidade. Ao mesmo, um homem inicialmente desconhecido chega em Nova York, visita lugares relacionados à vida pessoal de Parker de forma silenciosa, deixando pequenas pistas que só serão esclarecidas pouco mais pra frente.

 

O homem misterioso se mostra como ninguém mais ninguém menos que o antigo clone de Peter, criado anos antes pelo Chacal e dado como morto em uma explosão. O encontro entre os dois é acalorado, e Peter não hesita em confrontar seu clone diretamente, inconformado com a situação e com medo de perder seu lugar. O clone, em contrapartida, tenta provar que não veio para roubar a identidade do original, mas sim fazer o bem à sua própria maneira e buscar um lugar para si, sendo esse e o confronto entre os dois o tema central da saga.

 

Ao mesmo tempo, um misterioso personagem chamado Judas Traveller aparece, apresentando-se como um psicólogo um tanto místico que deseja estudar a natureza do mal. Ele domina uma espécie de manicômio para vilões, chamado Instituto Ravencroft, e acaba convocando o Homem-Aranha para usá-lo de cobaia e testá-lo das formas mais sádicas possíveis.

 

No capítulo seguinte, continuamos a ver o clone (que conseguira escapar no meio de um confronto contra o próprio Peter), em conflito com sua própria identidade, refletindo sobre quem é, o que suas memórias significam, e o que deve fazer em seguinte. Perambulando por Ravencroft, em meio aos testes de Traveller, Parker passa por corredores vazios, com sua mente sendo constantemente atormentada por visões de seus rivais sofrendo, aparições estranhas, e um embate nada equilibrado contra Traveller.


Nesse capítulo também tivemos alguma continuação do prólogo, acompanhando a trajetória de Mary Jane e o estado de saúde de May, mas ao final temos a revelação que, ao ler a mente de Peter, Judas Traveller descobriu a existência do clone e resolveu usá-lo também para seus planos sórdidos, com sua porta-voz, a vilã mística Chakra apresentando-o um dilema difícil.

 

O clone, em busca de identidade própria, assume o nome Ben Reilly, mas como as memórias de Peter Parker são muito fortes nele, o que o faz querer agir como um herói, vestir uma roupa improvisada, e partir para resgatar Peter Parker em Ravencroft. Ben faz uma visita à May antes, sem saber o que está para vir e é recebido de forma não muito solicita por dois lacaios de Traveller: Boone e Medeia, que o dão algum trabalho, mas nada que um soco bem dado do Aranha Escarlate (ainda não nominado assim) não resolvesse.

 

Judas Traveller continuou torturando o psicológico do Homem-Aranha original, manipulando-o e enfraquecendo-o com visões perturbadoras e ilusões muito reais de vilões do seu passado, para testar seu limite e levá-lo pro desespero. No clímax da edição, Peter finalmente consegue escapar das prisões mentais e físicas impostas a ele, e finalmente se reencontrar com seu clone Ben Reilly.

 

Parker não confia no clone e causa muitos problemas e, nesse processo de conflitos, Reilly acaba descobrindo que apesar de ambos compartilharem a mesma base, Peter se tornou mais sombrio e distante, gerando um conflito interessante de acompanhar entre os dois enquanto tentam trabalhar juntos agora com um problema dos grandes: Traveller acaba decidindo soltar todos os detentos, incluindo um dos piores deles, o Carnificina.

 

A luta demandou muito esforço de ambos, mas acabam conseguindo derrotar Carnificina e voltar para atacar o cabeça por trás de tudo aquilo. No fim, Ben acaba sendo pego por uma grande explosão no Ravencroft, o que deixa os presentes preocupados, e, enquanto tenta impedir a folga de Traveller, Peter é atingido por um ataque de sugestão hipnótica, deixando a ameaça escapar.

 

Um grande momento de suspense, como um clássico cliffhanger, é que nos últimos quadros do encadernado, os leitores têm a revelação que Ben Reilly novamente escapara e decidira seguir em sua jornada de descobrimento pessoal.

Resenha

A escolha de tirar Tia May da jogada não é trabalhada nas histórias apenas como uma saída preguiçosa de roteiro, mas funciona para levantar questionamentos existenciais em ambas as entidades Homem-Aranha, um por não saber seu lugar e identidade, e o outro por estar cada vez mais mergulhado no mundo de heroísmo, perdendo o que sempre a identidade que já foi sua de nascimento.

 

E a presença do clone como uma sombra sempre presente, questionando o próprio Peter Parker original, é muito bem trabalhada nessa edição. Os conflitos internos de ambos ficam claros e tem um contexto adicionado, além de vermos os impactos desses conflitos internos.

 

Infelizmente o Instituto Ravencroft parece mais ser algo para preencher a lacuna de um conflito além do psicológico, porque apesar de termos um leve contato com antigos rivais do Homem-Aranha, todos passam muito rápido pela história e sua presença não é relevante.

 

Por outro lado, se você leu minha resenha da primeira edição da nova Coleção Clássica Marvel, sabe que vilões sem muito peso para a história não é necessariamente um problema para mim, o problema é que, mesmo isso sendo um encadernado de algumas histórias apenas, temos personagens demais tentando dividir o espaço.

 

Judas Traveller é um personagem muito criativo, divertidíssimo, uma mistura de Doutor Estranho com Mysterio, e que de forma vilanesca sem os clássicos requintes de crueldade; ele está interessado em sua experiência, como se fossem seus pacientes. Infelizmente não posso dizer o mesmo dos outros antagonistas, já que Chakra é no máximo de atiçar curiosidade, e Boone e Medeia são esquecíveis, parecendo literalmente os Beebop e Rocksteady do Tartarugas Ninja.

 

O final da história acabou ficando um pouco confuso e não vejo por que tinham de fingir matar o clone de novo... Mas apesar dessas críticas (mínimas, existem histórias muito piores), o encadernado compila bem uma introdução digna ao clone, prepara para as histórias seguintes, situa o leitor, faz tudo bem, exceto os vilões e as ideias, porque parece que chegaram nos escritores, ofereceram a pizza, o café, e pediram tudo que queriam em uma história.

 

No final do encadernado, temos um apêndice, com comentários e arte, como um diário do Dr. Kafka, e os esboços de Bagley e Lyle são deliciosos de ver. Esse é o tipo de coisa que enriquece o quadrinhos e faz o leitor e os colecionadores valorizarem aquela peça como uma obra, visto que mostram um cuidado com toda a experiência, incluindo o pós-leitura.

 

Em geral gostei, não tanto quanto os capítulos seguintes dessa saga, mas ela é boa no que se propõe, só precisa ignorar algum desses detalhes que mencionei.

Arte

Apenas por capricho começo falando da capa dessa edição: Cativante, intrigante, viva, maravilhosa! Só pela imagem de um Homem-Aranha contra Peter Parker você já compra o quadrinho! Obrigado Steven Butler por essa capa maravilhosa.

 

A capa original da que foi escolhida para representar esse primeiro volume foi lançada no Brasil com alguma variação. Por aqui a Abril optou por trocar esse monocromatismo por um fundo mais decorado, com teias e sombras, enquanto a original costumava vir com um fundo em uma cor sólida.

Capa da revista mensal O Homem-Aranha número 165, publicada pela Editora Abril Jovem. A arte destaca o confronto entre o Homem-Aranha e Peter Parker com um fundo de teia sobre preto. Inclui o selo "O início da saga que vai mudar o Homem-Aranha para sempre"
Capa da Abril, 1994

Capa da revista em quadrinhos americana Web of Spider-Man número 117, parte 1 da saga Power and Responsibility. A ilustração mostra o Homem-Aranha sendo segurado pelo colarinho por um homem idêntico a Peter Parker. Fundo laranja com o texto "Spider-Man versus Peter Parker?"
Capa americana original, 1994

 

O relançamento da coleção pela Panini optou por focar mais nos personagens do que em decorações externas, se assemelhando ao original publicado pela Marvel em 1994, mas optando pela capa chamada “Regular Cover Variant”, com um degradê indo de laranja a amarelo (a melhor, na minha opinião)



Capa do encadernado "Homem-Aranha: A Saga do Clone Vol. 1" lançado pela Panini Comics em 2024. A imagem apresenta uma arte limpa com fundo amarelo, mostrando o Homem-Aranha e seu clone frente a frente. No canto superior esquerdo, o logo da Marvel Panini Comics e o número 1.
Capa do encadernado da Panini, 2024

 

Nessa série teremos alguns nomes recorrentes, famosos na década de 1990, muito por continuarem na pegada de Todd McFarlane, mas cada um dando seu próprio toque. No prólogo, por ser um excerto de várias histórias, temos as artes de Alex Saviuk, Don Hudson, Mark Bagley, Tom Lyle, e Sal Buscema. Notavelmente, Hudson e Saviuk são os que têm um trabalho mais dispare, com traços e proporções pouco harmoniosas. Quanto aos outros, apesar da brusca mudança de estilo ao virarmos de uma página para outra, somos surpreendidos com quadrinhos cada vez melhores, com Buscema, em minha opinião, se destacando no prólogo.

 

Steven Butler, autor tanto da capa da primeira história após o prólogo, e que também foi escolhida para estampar a primeira edição da coleção Saga do Clone, tem desenhos muito dinâmicos e caricatos (como se estivéssemos lendo uma quadrinização do Batman de Adam West), mas de altíssima qualidade e expressões faciais impressionantes, com menção honrosa ao desenho de Judas Traveller. A arte-finalização de Randy Eberlin é boa e adequada a todo momento, sem exageros desnecessários, mas a cores, por Kevin Tinsley, muitas vezes aparecem exageradas no contexto ou fracas demais. Já na segunda história da edição, temos os desenhos por Mark Bagley, a arte-finalização por L. Mahlstedt, e as cores por Bob Sharen. Apesar da sua representação do Homem-Aranha ser a melhor dessa época, especificamente nessa história, Bagley traz alguns rostos com expressões estranhas ou expressão alguma, algumas vezes pioradas pela arte-finalização, mas as cores são adequadas e boas.

 

Na terceira história, enxertada de Spiderman 51 (10/1994), temos os melhores quadros e desenhos dessa coleção: por Tom Lyle, um dos meus desenhistas favoritos do Cabeça de Teia, arte-finalização de Scott Hana, e pelas cores de Kevin Tinsley. Ainda que dos anos 1990 até hoje, um dos artistas mais celebrados por seu trabalho com o Homem-Aranha tenha sido McFarlane, Lyle, em minha opinião, traz uma estética sólida, quase cinematográfica, me fazendo muitas vezes preferir este àquele.

 

Por fim, se milagre ou alinhamento planetário, não sei, temos o fechamento do arco Poderes e Responsabilidades e do encadernado pelas mãos do incrível Sal Buscema, que traz personagens com reações bem marcantes em seu desenho, além de trazer um tom de quadrinho com movimentos muito dinâmicos, incluindo um trecho em que os quadros estão completamente horizontais.

 

Sou suspeito pra falar, mas Bagley e Lyle são quem mais impressionam, deixando tudo naturalmente grotesco, como se estivéssemos dentro do cérebro perturbado de uma aranha literal. Mas a verdadeira estrela são os deliciosos traços da estética Marvel anos 1990, embebidos a ponto de encharcar no mistério e grotesquidade dos anos dessa década.

Conclusão

A Saga do Clone dos anos 1990 é muito controversa, mas é inegável que essa é uma das mais bem-sucedidas e famosas sagas do Homem-Aranha e até da Marvel, e todas as fontes indicam que os números de venda não mentem.

 

Ben Reilly é o clone mais famoso do Peter Parker, todo seu simbolismo, desde o visual (especialmente o uniforme, criado pelo querido Tom Lyle), até as questões filosóficas envolvidas na clonagem são o puro suco dessa estética noventista mais suja, quase um barroco urbano. Acompanhar esse desenvolvimento para além da história de “nascimento” do personagem nos anos 1970 é muito cativante e inspirador.

 

Esse começo é muito empolgante e eu recomendo sim a qualquer um que seja fã do Homem-Aranha, porque tem uma entrada muito fácil, não precisa saber muito das histórias anteriores para aproveitar e as ideias apresentadas fogem do padrão clássico de quadrinho de herói, até com questões que podem trazer reflexões profundas.

 

Como leitor, mas também escritor, sei como uma editora pode prejudicar a qualidade de uma história para aproveitar a onda de altas vendas, reduzindo prazos e empurrando demandas absurdas de trama. Então ao invés das prometidas dezoito edições (que teve o último lançamento agora em dezembro de 2025), optei por comprar apenas as dez primeiras, quando a história ainda é interessante e não tão bagunçada.

 

De qualquer forma, quero deixar registrado aqui que ler essas histórias foi um grande prazer!


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© 2025 por E. Vespertino

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